terça-feira, 19 de outubro de 2010

Professor. Operário ou intelectual?

Mais um ano se passa, mais um dia dos professores se aproxima e sempre gosto de fazer uma reflexão sobre nossa situação de trabalho e principalmente nosso papel e importância na sociedade, e diante dessas reflexões pessoais, fico realmente preocupado com o rumo em que caminha a sociedade.
Acredito que a educação nos últimos tempos vem cumprindo um papel invertido do que considero sua função. Se observarmos no passado, a educação, o estudo, a análise científica e crítica de todas as disciplinas, de todas as áreas, tinha como principal papel fornecer subsídios para o desenvolvimento amplo de toda a sociedade, e hoje, a situação é inversa, a sociedade que dita o caminho que a educação deve seguir. A sociedade, o mercado, as necessidades econômicas,as áreas que necessitam de uma mão de obra específica aqui ou ali, enfim, as conjunturas sociais e econômicas moldam a trilha a seguida pela educação, ou seja, a ciência segue a caminhos determinados por interesses não científicos, o que na minha humilde opinião deveria ser o inverso. As universidades o ensino técnico, até mesmo o ensino regular tende a receber as demandas da economia e resolve-las, e deveria ser ao contrário, pois as ciências que devem orientar a sociedade e acontece exatamente ao inverso. Isso é muito claro, a medida que as autoridades vem implantando ensino técnico segundo as necessidades do padrão econômico regional, citando como exemplo os cursos técnicos na área de calçado em Franca, ou metalúrgicos no ABC paulista ou mesmo de técnicas agrícolas voltadas a cana em áreas produtoras de açúcar e álcool, ou seja, o liberalismo, defendido pelos donos de empresas que pregam a propriedade dos meios de produção como garantia de obter liberdade pelo ganho econômico (todos temos o direito de ir e vir, mas para ir e vir é necessário ter recursos) na prática condena os menos favorecidos a se enquadrar no mercado existente, favorecido pelo sistema educacional técnico que forma exércitos de mão de obra para suas fileiras de produção, atendendo as demandas dos proprietários e seus meios de produção.

O ensino fundamental e médio contribui de forma decisiva nesse processo de perpetuação da exclusão, à medida que a escola, não forma um censo crítico verdadeiro no educando. Vamos a um exemplo para melhor explicar o que digo. Supondo que Franca tenha 300 salas de 3°ano do ensino médio, cada um com trinta alunos, ou seja, no final de cada ano, temos nove mil alunos que saem dos bancos escolares. Se cada um desses alunos tivesse condições, subsídios de avaliar se o mercado de trabalho que existe é o que ele deseja, pode ter certeza que sua posição e questionamento perante a sociedade ia ser diferente, assim, com certeza ele não aceitaria, ou no mínimo questionaria seu salário, condição de trabalho, suas oportunidades de ascensão social, entre outras coisas. Ele saberia que decisões políticas influenciam diretamente no preço da cesta básica, na fila do SUS, na condição de moradia. Talvez assim, não teríamos tantos “eleitores de Tiriricas”, coisa comum e triste em nossa sociedade, pois o sistema de ensino, visa formar o aluno com conhecimento da norma culta da Língua Portuguesa, conhecimento da Matemática, Química, Biologia e outras , disciplinas que exigem conhecimento e raciocínio lógico, mas não de Filosofia, Sociologia Geografia e outras, que exigem conhecimento crítico. Fato que prova isso sem dúvida, é que a própria Sociologia conta com uma só aula no ensino médio, em resumo, o que ensina o aluno a ver sua condição no mundo não é privilegiado. Alias, no Estado de São Paulo a obrigatoriedade da sociologia só aconteceu após uma ação na justiça movida pelo Sindicado dos professores, pois o governo estadual paulista não cumpria a decisão da obrigatoriedade da Sociologia no ensino médio, emitida pelo vice presidente em exercício José Alencar datada de 2008 (lei 11684). Isso demonstra a “vontade” da tucanada paulista de aplicar disciplinas que formam cidadania. O aluno sai da escola sem conhecer o mundo que o espera, tornando-se fácil de ser dominado,um cidadão sem argumentos sociais. Nossa sociedade hoje colhe esse fruto da educação falha, é só observar os acontecimentos em volta do mundo. Na França, Alemanha, Grécia, Argentina, Holanda e outros países de destaque no mundo, há mobilização social em torno dos interesses comuns, enquanto nesse países o 1º de Maio (dia do trabalho) é data de luta, de mobilização, no Brasil é data de ver o Zezé de Camargo e outros artistas no Ibirapuera, e pior patrocinado por centrais Sindicais pelegas e traidoras da classe trabalhadora.

Para que isso ocorra, todo esse processo de alienação fosse cumprido na sala de aula, e que os professores submetessem a esse processo educacional (que muitos professores nem tem consciência que ocorre), foi necessário amputar os professores de seu pensamento crítico,promover junto ao professor uma visão política, econômica e principalmente de mercado que levasse a aceitação e submissão plena da situação, e isso aconteceu de forma gradual. Primeiro desvalorizando a profissão, o status de intelectual e financeiro foi com o tempo sendo achatado por políticas públicas educacionais em que os números estatísticos são mais importantes que a qualidade da educação. Em seguida veio a precarização da escola em si, muitos alunos em sala de aula, sistema excludente de mérito, a política do medo. E para finalizar em linhas gerais o engessamento do professor, preso a material didático que decepa ou no mínimo limita sua condição criativa. Poucos professores consideram um fato que pra mim é visível. O professor de antes tinha em seu papel na sociedade, uma condição de respeito por ser intelectual, hoje, a situação do professor, suas demandas, são próprias do operariado, na qual a luta por salários e condições de trabalho assemelham-se mais com o operário de chão da fábrica, já que o professor também tem que executar tarefas previamente estabelecidas pelo currículo,do que da intelectualidade pensante e que norteia todas as ações da sociedade. Infelizmente poucos professores se dão conta disso, divididos em letras do alfabeto e alienado de seu destino profissional, não consegue mobilização da categoria, tornando-se não um contra ponto na sociedade como deveria e faz outras instituições como CRM, OAB, etc; mais em uma ferramenta para o capital, afim de perpetuar a exclusão em nosso país. Hoje, nessa data comemorativa do dia do professor, gostaria de assistir a discussão sobre os caminhos da educação, mas o que vejo é a apatia geral e a preparação para o baile promovido pelo sindicato, esse mesmo que deveria incentivar e canalizar as discussões. Ou professorado reage, ou não teremos nunca a diminuição das injustiças sociais que tanto nos incomoda.

Um comentário:

Ronald disse...

Passei por aqui para agradecer a visita. Um grande abraço e dias melhores para suas classe na certeza de um Brasil melhor, caso contrário....