domingo, 8 de junho de 2008

voçoroca das maritacas

INTRODUÇAO


A cidade de Franca localiza-se no extremo nordeste do estado de São Paulo, numa área considerada marcadamente tradicional, tanto do ponto de vista das formas de. relevo, como das condições ecológicas do solo, vegetação , e ainda do povoamento. O planalto Francano, por ser uma área bastante elevada (1.040 m de altitude) funciona como divisor de águas de Rio Sapucaí e do Rio Grande, abrigando nascentes e cursos de água, inexistindo grandes planícies fluviais, devido a sua localização em áreas de domínios de erosão, onde os solos são arenosos (arenito, Bauru e Botucatu). Nas proximidades desta área urbana, o lento trabalho de erosão dos cursos d'água, tais como, córregos, ribeirões e rios, provocou o aparecimento da paisagem de colinas da cidade.
Do lado leste, o planalto arenitico basáltico termina com escarpas abruptas. Os vales profundos escavados pelos córregos Bagres, Espraiado e Cubatão, formam furnas dominando o lado norte e nordeste, sendo as inclinações mais suaves pelo lado oeste.
Com toda essa inclinação do terreno, há sempre um grande volume de águas Fluviais, que junto com um solo arenoso e fácil de ser erudido, criam sulcos sobre o terreno já desmatado pela própria urbanização do espaço, agrava os referidos sulcos e através disso, abrem-se grandes crateras na terra ate atingirem muitos metros de profundidade e extensão. Outro fator que deve ser destacado é o fato de Franca ter uma estação seca e outra muito chuvosa que carrega argilas e areias soltas que causam desmoronamentos que agravam ainda mais a extensão e profundidade da voçoroca.
Varias são as voçorocas no sitio urbano de Franca, sendo que as maiores se localizam nos bairros Jd.Líbano, Recreio Campo Belo, Vila Raycos, Jd.Moreira Junior, e Parque São Jorge, neste ultimo esta a voçoroca das Maritacas, a maior que já existiu na cidade, cuja prefeitura aterrou com resíduos industriais de calçado e seu estudo físico e ambiental, será nosso objeto de estudo no presente tcc.




1. FORMAÇÃO E ESTRUTURA DO SOLO


Segundo Silvério Bueno, professor de língua portuguesa, voçoroca significa desmoronamento resultante de erosão produzido pela água, já segundo Teodoro Sampaio o significado etimológico de voçoroca, proveniente do Tupi-Guarani "ibi-coroc”, corresponde à terra rasgada ou rasgão no solo. No dicionário, enciclopédia brasileira, voçoroca significa de desmoronamento determinado pela ação erosiva das águas em camadas permeáveis, escavação profunda em terreno arenoso. Ainda, segundo o Dicionário Contemporâneo de Caldas Aulete, escreve-se voçoroca como grande desmoronamento na origem dos riachos e cursos d' água causado pela escavação das águas subterrâneas, desmoronamento causado pela invasão das águas fluviais. Para finalizar, citamos ainda que voçorocas sejam enormes buracos feitos pela erosão, resultantes da ação conjunta de enxurradas, pela ação do lençol subterrâneo que ao desgastar camadas do subsolo, provoca o afundamento da superfície em terrenos mais frágeis, essa última definição feita por Elza Helena Marqueti.
Como podemos verificar em diversas definições citadas por vários autores, voçoroca pode ser considerada um grande "buraco" ou "rasgão" no solo, causado por águas de escoamento superficial, subterrâneas e pluviais, além da ação indireta do homem através de manejos inadequados do solo. O município de Franca, assim como toda a região que abrange o Planalto Ocidental, são constituídos basicamente por terrenos paleomesozóicos, os quais se formaram por volta de 220 milhões de anos atrás. Os terrenos mais antigos da região são representados por dois tipos de rochas bem diferentes entre si, são elas: Sedimentar (arenito Bauru) e a Magmática (basalto). Para melhor esclarecer e diferenciar estas diferenças, vamos verificar as diferentes formações dos dois tipos de rochas.
BASALTOS - As lavas vulcânicas, derivadas do basalto, ao esparramar-se pela superfície, sofreu um brusco resfriamento. Com esse resfriamento, a lava endureceu dando origem a uma rocha escura e resistente, denominada basalto. A saída desta lava do interior da terra dá-se de duas formas: por fenda e rachaduras no terreno, e por crateras vulcânicas.
Franca se enquadra neste segundo caso.
ARENITO - Sua formação deve-se a compactação (diagênese) de areia de origem desértica, fragmentadas por agentes erosivos como vento, água etc., e são depositados nas áreas mais baixas da região, formando, com o passar do tempo, em rochas compactas.
No município de Franca, os solos das duas formações acima descritas, que por sua vez, deram origem a dois tipos de latossolo: roxo (basalto) e amarelo (arenito).
LATOSSOLO ROXO (basalto) - Tem como origem a decomposição de rochas magmáticas como o basalto já citado acima.
LATOSSOLO AMARELO (arenito) - Tem sua origem na decomposição do arenito, que como citado acima é uma rocha sedimentar. É neste tipo de solo que se desenvolve a voçoroca, nosso objetivo de estudo.
Nesse Planalto de Franca-Pedregulho existe um edifício geológico estrutural que constituindo um pacote de arenitos mesozóicos de aproximadamente 80 metros de espessura sobre os derrames basálticos regionais. Todo esse pacote de arenito, de Franca a Pedregulho, é composto de arenito Botucatu ( em sua profundidade ), e logo acima arenito.
Bauru - A existência de diversos conjuntos de voçorocas nos sítios urbano de Franca, criando vários problemas sociais, sanitários, urbanísticos e até mesmo jurídicos, obriga-nos a realizar um estudo mais aprofundado da questão.
Os arenitos avermelhados, denominados de Arenito Botucatu, são originários de clima desértico, correspondente ao "deserto Botucatu" que cobria essa região. Associado ao arenito, encontra-se as rochas magmáticas, principalmente o Basalto que representa derrames de lavas vulcânicas cuja origem de grandes aberturas no terreno. Na maior parte da região, também presencia outras formações rochosas mais recentes, representadas pelo arenito.
Bauru com cores alteradas oscilando entre cinzentos brancos e avermelhados. Durante período quartenário, o clima teve alterações de maneira significativa, tornando-se mais úmido dando rigem aos cursos d'água, contribuindo ainda mais na modificação da PAISAGEM, ora tornando-se mais seco, ora mais úmido.
O planalto francano, por ser uma área bastante elevada funciona como um divisor de águas (córregos e ribeirões), e essa rede de drenagem francana se estabeleceu nos fins da era secundária.
As furnas profundas do planalto francano foram esculpidas pelos córregos através de uma erosão remotamente das nascentes; as águas dos córregos e ribeirões, correm em direção nordeste, indo para o rio Canoas, dirigindo-se depois para o norte, até chegar ao rio Grande; ou vão também, em direção oeste, sudoeste, engrossar as águas do rio Sapucaí. A alimentação dos cursos d'água da região francana, está na dependência das chuvas, essas, infiltram-se no solo através de rochas permeáveis como o arenito, ou através de fendas, como as que aparecem no basalto; a água que se infiltra forma o lençol freático ou lençol d'água subterrânea, em conseqüência deste fato, normalmente dentro das voçorocas existem nascentes de água porque o lençol freático foi atingido pela erosão.
No decorrer do período terciário, a topografia da região também se modificou, ocorrendo um soerguimento da superfície conhecido como epirogêneses que ocasiona a formação de planaltos mediante surgimento ou levantamento de blocos do continente. A ação dos cursos d’água torna-se cada vez mais acentuados, erodindo cada vez mais as camadas de arenito que cobriam a região, que sua formação é caracterizada pelo agrupamento de sedimentos ou também detritos de outras rochas despedaçadas por agentes que provocam erosão como água e o vento. A maior e mais conhecida voçoroca da cidade conhecida como Voçoroca das
Maritacas, que se situa entre os bairros Pq. São Jorge e Vila Formosa, em uma área de grande concentração habitacional e comercial, de grande valor imobiliário e uma enorme população estão a Voçoroca, principalmente após a Prefeitura Municipal de Franca aterrar toda a sua extensão com lixo doméstico, entulhos e principalmente resíduos sólidos das indústrias de calçados de Franca será nosso foco central e objetivo maior de nosso estudo e reflexão neste trabalho.
Toda voçoroca representa um processo forçado pela concentração de lençóis d'água pluviais, os processos iniciais de ravinamento se apóiam em sulcos pioneiros de origem predominantemente antrópica que desencadearam o processo de erosão fluvial (enxurradas). A remoção generalizada da vegetação da mata dos fundos dos vales indo até as vertentes é o fator número um do surgimento da voçoroca das Maritacas, o pisoteio dos animais em pastagens, sulcos na construção de cercas, exploração de cascalho, aceros e qualquer outra atividade que possa causar alguma agressão física no terreno, causa um elicio de um processo erosivo nas altas vertentes da margem direita do córrego dos Bagres, área esta que esta a voçoroca das Maritacas.
Em Franca, a voçoroca das Maritacas está localizada a aproximadamente 950 metros de altitude, isto é a voçoroca se forma em uma alta vertente, já que a altitude da cidade é de 1040 metros e o córrego dos Bagres que esta na baixa vertente se localiza a aproximadamente 540 metros, mesmo assim, a enorme quantidade de sedimentos levados ela água durante o processo erosivo de "construção" da voçoroca, não forma um depósito aluvial, já que o córrego dos Bagres tem uma enorme capacidade de transportar esses sedimentos. As Maritacas, dentro do padrão geológico do local, se desenvolveram em arenito Bauru inicialmente e com o passar do processo erosivo atingiu dezenas de metros atingindo o arenito Botucatu, sendo esse visível nas margens do córrego dos Bagres que está a uma diferença de 410 metros de altitude.
Além do solo da região ser fácil de ser erodido, existe também um importante e preocupante fator neste contexto da voçoroca. Trata-se do Córrego das Maritacas, um curso d’água de aproximadamente 780 metros de extensão que surge dentro da voçoroca indo sentido a baixa vertente, tendo sua foz localizada no córrego dos Bagres na Avenida Doutor Hélio Palermo.
Esse curso d'água sofreu uma intensa agressão ambiental já que na ocasião do aterramento da voçoroca, o mesmo foi aterrado junto. Desde, aproximadamente o ano de 1985, uma parte do córrego está canalizada, outra parte está drenada e uma terceira está a céu aberto. Para expor melhor essa situação, cabe-nos salientar que depois de estar parcialmente soterrado pelo "lixão”, o córrego das Maritacas aflora novamente e pode-se, nitidamente, perceber os efeitos da agressão que sofre do aterro. Sua água apresenta-se enegrecida e com cheiro fétido característico, resultante do chorume. Além do que, o lixo do couro tratado nos curtumes não se decompõe com facilidade, poluindo também o solo. Após deslocar-se livremente por alguns metros, ora a céu aberto, ora levemente recoberto pela terra, nota-se que a água do córrego já se mostra mais clara devido provavelmente, à infiltração parcial no solo e à decantação dos materiais em suspensão.
Neste local do leito existe, inclusive uma pequena área de mata ciliar com fauna e flora típicas, resquícios da beleza que, certamente, deve ter existido no local, antes que a ação antrópica devastadora desmatasse a região provocando a erosão do solo,a contaminação da água do córrego e o extermínio das maritacas
Vantagens e desvantagens, quando se compara o passado e o presente do Córrego das Maritacas, podem ser citadas: antigamente não havia poluição da água e cheiro desagradável causados pelo lixo industrial e não existiam doenças causadas pelos insetos hidrófilos, uma vez que a água era límpida. Entretanto existem alguns benefícios com o processo da urbanização, tais como: aberturas de ruas iluminadas e com saneamento básico, segurança das casas próximas à voçoroca e melhora da infra-estrutura do local, evitando desabamentos causados pela erosão.


2. CONSEQUÊNCIAS AMBIENTAIS DO ATERRO


Neste segundo capitulo, abordaremos a questão ambiental em toda área da voçoroca das Maritacas, mas para tratarmos desse assunto, é necessário que conhecemos a indústria calçadista francana, seu desenvolvimento,e como conseqüência os resíduos por ela produzido, já que tais detritos foram utilizados para aterrar a voçoroca, causando um grande impacto em toda sua área,tanto na fauna e flora como também no solo e subsolo, e toda sua conseqüência nas populações adjacentes ao término do grande aterro.
Para poder iniciar os relatos sobre a industria coureira e calçadista de Franca, é necessário ressaltar primeiramente os princípios básicos que antecederam a expansão das indústrias de calçados e artigos de couro na cidade de Franca. Localizada na região nordeste do Estado de São Paulo, na chamada "Zona da Alta Mogiana", Franca constitui um exemplo expressivo de centro urbano em pleno desenvolvimento por estar entre os maiores pólos comerciais e econômicos do país; São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, facilitando o intercâmbio comercial entre os mercados consumidores brasileiros.
Analisando as diversas fases de seu desenvolvimento, compreende-se que as vias de comunicação desde seu início foram um fator primordial para os vários processos econômicos em que a cidade vivenciou. Assim foi ao lado da estrada do sal (desvio criado pelos bandeirantes) em fins do século XVIII, contribuiu para multiplicar o número de pequenos ranchos e pousos, desencadeando o arraial Bonito Do Capim Mimoso, entreposto abastecedor de sal para uma ampla área do Brasil central, posteriormente dando origem a cidade de Franca - nesse período, aproximadamente, a cultura do café iniciava a sua grande expansão no Estado de São Paulo, chegando até a região nordeste e juntamente com a necessidade de escoamento do produto foi considerável a expansão das linhas estradas de ferro em princípios do século XX, data essa em que a cultura cafeeira passou a ser, então a principal riqueza da região, quando em virtude de diversas crises de ordem nacional e internacional a cultura cafeeira atravessou um período de declínio, quando a região passou por um processo de substituição do café pelo gado, introduzida no município, por encontrar características favoráveis, o município se transformou em centro reprodutor de gado reconhecido nacionalmente.
A partir desse período, com a introdução do gado dava-se início a evolução do trabalho em couro da cidade, devido a grande quantidade de matéria prima, primeiramente com trabalhos em celas de montarias, desenvolvidas pelos tropeiros da região, que lidavam com o gado, evoluindo-se para a manufatura calçadista.
A fabricação dos primeiros pares de calçado na cidade, tem seu início entre 1903 e 1905 através de uma associação entre Jerônimo Barbosa Sandoval e João de Góes Conrado, os quais iniciaram a instalação de uma oficina calçadista chamada CARLOS PACHECO E CIA, produzindo alguns pares de botinas e chinelões e com o lançamento das primeiras produções de pares de calçados e artigos de couro, juntamente com as características propícias, o desenvolvimento praticamente foi um sucesso, até que em 1921 com o advento de um curtume uma nova etapa de produção de calçados, agora com mecanismos em seu estabelecimento industrial.


"Um dos marcos das indústrias calçadistas no município foi à transformação em 1921, do curtume progresso na indústria denominada calçados jaguar, importando da Alemanha os primeiros maquinários para a produção de calçados. a mecanização da indústria coureira francana precedeu a calçadista" (FERREIRA, Mauro).

Essa iniciativa tornou-se a pioneira elaborada juntamente por processos de uma modernidade já existente em alguns países, cuja sua industrialização já era bastante intensiva.
Mas em meados de 1924, a empresa declarou sua falência, devido a uma série de fatores até então não divulgados, e por conseqüência desse acontecimento, a produção calçadista não sofreu nenhuma retração na sua continuidade, pois a mesma empresa liberou vários funcionários com uma experiência já bastante considerável e que para os mesmos garantirem as suas formas de sobrevivência passaram a montar suas próprias oficinas ou declarar sociedades a pessoas de grande poder econômico para adquirir os maquinários necessários para a fabricação dos calçados.


"O processo de industrialização da cidade intensifica-se a partir de 1930 utilizando máquinas de produção fabril, substituindo os artesões do couro detentores dos meios de produção, fabricantes do produtos em pequenas escala.” (TOLSI)

A partir dessa substituição de mudança de cargos, as indústrias passam a se consolidar e ganhar uma maior competitividade no mercado juntamente com a situação em que o país passou após Segunda Grande Guerra, onde as facilidades de crédito e a obtenção de mão de obra, o aumento do mercado consumidor e também a ampliação de novas formas de transporte, intensificando o escoamento das mercadorias. A produção industrial de calçados na cidade sofre uma alavancada considerável no inicio dos anos 70 e 80 principalmente com aquecimento do mercado interno e uma maior na quantidade de pares exportados, representando um desenvolvimento maior para o setor.
Na década de 70, a cidade praticamente abrigava cerca de 280 a 300 empresas do setor calçadista , e derivados do couro, e esse número cresceu a cada decênio até que nas décadas de 80 e 90, já havia se instalado na cidade um total de 450 a 500 empresas, gerando uma mão de obra de aproximadamente 18 mil a 20 mil trabalhadores, como afirma o Sindicato dos Sapateiros e Sindicato das Indústrias de Franca.
É necessário ressaltar ainda, que esses dados exprimem uma variação tanto no número de empresas como de trabalhadores, devido algumas circunstâncias vividas em determinados períodos de crises, em que as empresa, encerra suas atividades de fato, mas devido à burocracia e custos, não obtém sua carta de encerramento da empresa, ficando assim existente apenas nos registros contábeis e órgãos públicos correspondentes, mas não produzindo e nem empregando. A maioria dessas empresas, principalmente as com maiores se concentram em dois pólos industriais da cidade; o bairro Jdº. Paulistano na zona leste da cidade, e o Distrito Industrial, localizado na zona oeste, mas também se encontram indústrias em todo sitio urbano do município, deixando a mesma com uma aparência bem industrial, com picos de fluxo de pessoas, como em qualquer outra cidade industrial.
Ressalta-se ainda, a oscilação na produção de calçados na cidade principalmente a partir de 1987 e década de 90, quando se inicia a reestruturação produtiva, aonde o setor acompanhou a tendência recessiva que dominou a economia brasileira nesse período, as empresas encontrando dificuldades no mercado externo, se adaptaram e visaram o mercado interno, menos exigente quanto à qualidade, fez com que as empresas se desobrigassem dos encargos trabalhistas, iniciando-se um amplo processo de terceirização, subdividindo as etapas da produção do calçado, desta forma reduzindo também seu espaço estrutural, obtendo assim uma redução de seus custos, dando nova dimensão ao trabalho informal, ausência de garantias trabalhistas de seus funcionários, condições precárias de trabalho juntamente com a presença de trabalho infantil incluindo até menores de 14 anos.
Nos moldes em que se encontra o modo de produção atual, uma empresa pode obter uma grande produção final com número reduzido de trabalhadores já que, grande parte do trabalho é realizada com empresas terceirizadas; em contrapartida essas micro - empresas, prestadores de serviços possuem trabalhadores contratados mas não apresentam produção final, ficando assim, totalmente dependente de contratos firmados pelas grandes empresas; os terceirizados não tem acesso aos clientes finais ou lojistas. O agrupamento industrial das empresas de Franca, diante de tantas adversidades como mudanças em planos econômicos, freqüentes crises, teve que se adaptar para sobreviver. A terceirização foi à alternativa encontrada para reduzir custos, tornando o produto mais acessível aos consumidores e competitivo nos mercados interno e externo.
Durante todo o período mencionado acima, com a intensa quantidade de resíduos produzidos por essa grande rede de indústrias calçadistas, principalmente o retalho do couro que recebe tratamento em curtume para obter maciez e cor, o cromo, produto químico altamente tóxico foi por um período de tempo de aproximadamente 20 anos, do começo da década de 80 até o final da década de 90, foi destinado a preencher o aterro da voçoroca das maritacas que no período já recebia resíduos domiciliares compostos por resíduos orgânicos (resto de alimentos cozidos e crus, cascas de frutas e verduras) e inorgânicos (papel, vidro, lata de alumínio, embalagens descartáveis plásticos etc.) alem de todo tipo de "entulho" como pneus, sofás, eletrodomésticos velhos, enfim, no lixo doméstico podemos encontrar produtos que afetam gravemente a saúde humana e animal como material de limpeza, tintas, baterias de telefones celulares, lâmpadas, pilhas e vários outros materiais que precisam receber tratamento e destinação diferenciados, através de processo de reciclagem seletiva, pois esses resíduos mencionados com o passar do tempo, recebem processos de decomposição e danos diferenciados, anto na agressão ambiental, como para a saúde humana, devido as suas diferenças químicas.
O lixo doméstico orgânico, é facilmente incorporado ao solo, sendo que, o maior problema, é o acúmulo de gás metano, produzido pelo processo normal de decomposição dessas matérias, já que esse gás é altamente explosivo, e cria a necessidade de se fazer dutos de retirada do gás do subsolo, para que não se forme bolsões de gás, deixando toda área em grande risco. Os inorgânicos, são considerados resíduos neutros, não se incorporando ao solo, mas também não se transformando em substâncias letais para o solo e populações adjacentes.
O grande problema dos resíduos que completaram o grande aterro, são os da indústria e os objetos que contém metais pesados e foram incorporados ao aterro junto com os ditos domésticos (pilhas, baterias de celulares, baterias de automóveis etc.), já que esses produtos contêm grande quantidade de metais pesados. Esses metais, também são utilizados na pigmentação do couro, sendo usado metais do tipo cromo, que adequando mais ou menos a sua quantidade, é produzido no couro e derivados a cor desejada.
O dano não se reproduz de forma imediata, e sim com o passar do tempo e principalmente o tipo de solo que é altamente permeável, junto com a quantidade de precipitações, contribui para o processo de lixiviação do solo, levando assim esses metais para os lençóis freáticos da região, ou sendo transportado como no caso específico em questão pelo córrego das
MARITACAS - esses metais pesados, ao ser ingerido pelo homem, através de alimentos contaminados, como peixe, e até mesmo quando usada essa água para irrigação de hortaliças, ele se acumula no corpo humano de forma bioacumulativa, isto é, o mecanismo do corpo humano, não consegue eliminar tais substâncias, ocasionando lesões ou doenças dependendo do tipo de substância.
CROMO - Produto altamente cancerígeno.
MERCÚRIO - Produto que causa danos renais crônicos e acumula-se no cérebro, causando demência.
COBRE - Assim como o cromo, acumula-se no cérebro causando demência.
CADIUM - Responsável por grandes incidências de deficiência fetal, quando a gestante absorve esse produto.
Quando iniciou a destinação de resíduos para a Voçoroca das Maritacas, algumas
providências deveriam ter sido tomadas pelos órgãos competentes para que num futuro próximo não houvesse nenhum tipo de comprometimento da área abrangida. Para levantar geomorfologicamente essa área se é apropriada para receber essas grandes quantidades de resíduos até então não divulgados pelos órgãos competentes é preciso ter sido feito um estudo da área que implica numa primeira etapa:
Fotos aéreas, cartas topográficas de 1 por 50.000 e 1 por 10.000.
Mapas de morfoestruturas (formas, relevo, água, já que na voçoroca, encontra-se um pequeno córrego que leva o mesmo nome e será descrito mais adiante).
Numa segunda etapa seria necessário ter sido feito:
Caracterização geográfica do local;
Perfil geológico e pedológico (solo);
Permeabilidade do solo;
Profundidade do lençol freático e suas variações sazonarias.
Com base nesse diagnóstico seria obtido mapa geomorfológico e de solo.
Nenhuma dessas providencias foi tomada no inicio do aterro, apenas foi tomado alguma precaução por volta de 1984, por ocasião do inicio da destinação dos resíduos calçadistas, a prefeitura instalou sistemas de drenagem e uma caixa de areia grossa, na tentativa de segurar parte do chorume produzido pelo lixo acumulado e levado pelas águas do córrego das Maritacas.
Esse curso d'água denominado córrego das Maritacas tem uma extensão total de 780 mt de comprimento. Sua nascente ocorre perto de onde funciona a Diretoria de Ensino de Franca, localizada a rua Irênio Grecco s/n; com o aterro da voçoroca, o córrego também sofreu esse aterramento. Desde aproximadamente 1985, uma parte do córrego esta drenada, outra
canalizada e uma terceira desliza a céu aberto, até estar novamente canalizado sob uma avenida (Dr.Hélio Palermo), já nos limites de sua pequena bacia hidrográfica. Após sua trajetória desde sua nascente no subsolo do aterro de lixo industrial o córrego das Maritacas deságua no córrego dos Bagres, seu coletor final.
Como já foi dito, o material utilizado para aterrar a Voçoroca das Maritacas, constitui basicamente de resíduos de lixo doméstico e industrial, oriundo das indústrias de calçados de franca, e também os setores terceirizados presentes na cidade. Logo após, sua nascente debaixo do “lixão”, o córrego aflora novamente e pode-se perceber claramente os efeitos da agressão que sofreu com o aterro. Sua água apresenta enegrecida e com um cheiro fedido característico, resultante do chorume, além do que, o couro tratado em curtumes não se decompõe com facilidade, contaminando também o solo, esse chorume, é resultante da parte líquida das substâncias orgânicas decompostas, em ocasiões especificas, pode ser utilizado como adubo natural por ser rico em substâncias orgânicas.
Após deslocar-se livremente por cerca de 300 metros, ora a céu aberto, ora recoberto pela terra, a água do córrego se mostra mais clara, devido à infiltração parcial do solo, que comprova a contaminação também do solo, e também pela decantação dos materiais sólidos que ficaram em suspensão. Neste local, ainda pode se encontrar resquícios da beleza que certamente existiu naquele local, já que essa e a única área de todo o trajeto do córrego que se pode notar ainda alguns sinais da fauna e flora natural, antes que a devastação causada pelo homem modificasse toda a paisagem, provocando a erosão, a contaminação da água e solo, e o extermínio das maritacas que dá nome ao córrego e a voçoroca.
Como se não bastasse tamanha agressão, perto de sua foz ,ele esta novamente canalizado, sendo construído sobre ele uma avenida com grande fluxo de veículos (Dr.Helio Palermo), neste local, o córrego deságua no córrego dos Bagres, tornando-se assim, um de seus afluentes.
Para tornar mais lúcido esse presente trabalho, classificaremos agora as condições ambientais encontradas no momento em toda a voçoroca e como conseqüência a bacia do córrego de mesmo nome.
FAUNA - Em alguns pontos ainda e possível verificar resquícios de mata ciliar e vegetação típica de cerrado que dominava a região, tempos atrás.
FLORA - E encontrado basicamente algumas espécies de aves e animais domésticos: pássaros, pombos, galinhas, cães, gatos e cavalos. Além de grandes quantidade de insetos: formigas, baratas, moscas, mosquitos e borboletas.
Na voçoroca, por suas condições especiais verificamos a presença de carrapatos, mosquitos, gafanhotos, formigas, aranhas e urubus. Nem sinal de maritacas...
ÁGUA - A água de todo o córrego das maritacas, encontra-se altamente tóxica devido a grande quantidade de AMONIA, proveniente dos despejos de produtos químicos dos resíduos industrias, (produto volátil que não oferece riscos para a saúde humana).
Após o estudo acima relacionado, e para uma maior compreensão da situação atual da Voçoroca das Maritacas e toda a área circunvizinha, foi realizado uma pesquisa de campo através de um bloco de questões abrangendo os seguintes questionamentos aos moradores da região da voçoroca (questionário em anexo).
Os moradores entrevistados, foram escolhidos aleatoriamente, sem uma pré-definição de idade e condição social. A forma de abordagem foi direta, ora batendo em residências, ora pela indagação direta nas ruas. Depois de considerar as respostas dos moradores vizinhos a Voçoroca, a conclusão que chegamos foi que os moradores falam das maritacas com uma certa saudade da época que ainda existiam no local, falam também que atualmente, há muitos insetos, e às vezes, principalmente em épocas de mais calor existe um forte cheiro, principalmente nas áreas do córrego das Maritacas localizado próximo ao aterro sanitário.Outro aspecto interessante é o fato que os moradores mais antigos, não relacionaram a grande voçoroca com criminalidade, como por exemplo, consumo de drogas, todas elas acreditam que se ainda hoje, existisse a voçoroca, com certeza esta seria usada para esses fins, demonstrando assim, outro aspecto sobre o aumento da criminalidade com o crescimento da cidade.
Com base ainda neste questionário, concluímos com base em muitos depoimentos, que os moradores (principalmente os de maior idade) acreditam que as condutas dos órgãos governamentais da época, não trataram à voçoroca de forma adequada. Muitos moradores, recordam-se da época em que havia uma fauna mais exuberante, principalmente com a presença das maritacas, e hoje, após seu extermínio, só restaram vários tipos de insetos.
Existe ali, por parte de alguns grupos de moradores, uma importante consciência ecológica, que não existia na época do inicio do aterro.


CONCLUSÃO


Após o término da realização do presente trabalho de pesquisa sobre o estudo físico e ambiental da Voçoroca das Maritacas na cidade de Franca, vários aspectos devem ser observados no que se refere na sua natureza geormofológica e principalmente a questão de como foi trabalhado para finalização com as obras de aterro. Antes de mais nada, devemos considerar que a região de Franca, por ser uma área formada basicamente pelo latossolo amarelo (arenitos Bauru e Botucatu), é muito susceptível de erosão, principalmente após a ação antrópica, que provocou a retirada da vegetação do fundo do vale do Córrego dos Bagres, chegando até sua vertente mais alta para o uso agropecuário. Com o desencadeamento do processo erosivo, o lençol freático foi atingido, surgindo assim o córrego que leva o mesmo nome da voçoroca o qual foi descrito acima. Por volta das décadas de 80 e 90, a prefeitura de Franca, que já lançava os resíduos domésticos na voçoroca, iniciou também a destinação dos resíduos das indústrias calçadistas, contribuindo desta forma, para o soterramento da voçoroca e o córrego que esta abrigava. A voçoroca das Maritacas de Franca, poderia ter tido uma melhor solução. Ao nosso ver, realmente alguma medida deveria ter tido tomada para resolver o caso, já que a mesma avançava sobre áreas de residências e vias públicas, tornando a presença humana nas suas bordas um constante risco principalmente em épocas de chuvas. A cidade conviveu com a voçoroca durante muitos anos sendo ela, por assim dizer, ponto de referência na cidade, e área que muitas gerações de crianças divertiam em seu leito profundo e sua borda, jogando bola em seu interior, brincando nas águas límpidas do seu córrego, e principalmente, observando os muitos ninhos de Maritacas que se encontravam nos seus paredões, sendo assim, não é de se estranhar que vários moradores da região ainda falam da voçoroca com certo saudosismo como podemos observar em nossa pesquisa de campo, em especial nas entrevista. Soluções melhores a nosso ver, poderiam ter sido aplicadas. Primeiramente porque o aterro como dito acima, teve pouco preparo, as condições do trabalho executado pelo poder público, ficaram muito aquém do que seria recomendado. Houve contaminação do solo,extermínio da fauna e flora, poluição das águas do córrego do lençol freático, e como conseqüência disso, de toda a bacia hidrográfica da região, já que logo abaixo o referido Córrego tem sua foz nos Bagres, este no Sapucaí, e assim por diante. Toda essa grande bacia, que fornece água para várias regiões, vai sendo contaminada por metais pesados, como descrito em nossa segunda parte do trabalho.
Na época do auge da erosão na área, (1970) o grande geógrafo Aziz Nacib Ab'Saber sugeriu em pesquisa, que o correto seria fazer da área, um parque ecológico, e para viabilizar esse projeto, seria reflorestado toda a borda da voçoroca e seu vale, com vegetação de Pinus ou Eucalipto, juntamente com plantação de grama no solo. Seria canalizada e represada a água do córrego, formando assim um pequeno lago, com área própria para esporte, lazer, e recreação para toda a população francana, resolvendo em definitivo o problema erosivo, surgindo área de convívio social e entretenimento como: teatro de arena, quiosques e coisas do gênero. Sendo assim, não haveria o aterro, a população não conviveria com o lixo e a poluição visual e física. Na época do referido projeto citado acima, não houve um interesse por parte do poder público municipal, sendo que por mais de dez anos após, a referida sugestão, ainda não havia tido uma solução para o problema, e a voçoroca estava sem nenhuma plano de restauração e contenção; sendo assim, até 1984, ficou totalmente paralisado, qualquer obra na área, até o inicio das atividades de aterro. Acreditamos que por falta de competência ou preocupados com que fim dar aos resíduos calçadistas, já que na época a indústria estava em pleno crescimento, os resíduos industriais foram jogados na grande voçoroca, prejudicando assim, as populações mais carentes da área, já que a mesma na época era considerada uma área periférica, destruindo desta forma, qualquer aspiração das populações locais de ter uma área de recreação perto de suas moradias.
A voçoroca vem provar mais uma vez que o fator financeiro prevalece sobre os sociais na sociedade moderna, onde os resíduos da industrialização que gera lucros para poucos, se torna problema para muitos, é necessário que a Voçoroca das Maritacas, sirva de exemplo de trabalho incorreto para as próximas gerações de administradores públicos, já que a cidade de Franca sofre com esse problema erosivo e ambiental quase que cotidianamente, havendo na cidade, um grande número de outras incidências, que não devem receber o mesmo tratamento dado a voçoroca das Maritacas.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFIA


AB’SABER, AZIZ NACIB – “ A geomorfologia do Estado de São Paulo”. (1654) in aspectos geográficos da terra Bandeirante. Conselho Nacional de Geografia, Rio de Janeiro, 1-97 página.

BUENO, SILVEIRA, mini dicionário da Língua Portuguesa, ed. FTD.2000 para o ensino fundamental, São Paulo, 1898 a 1989.

MARQUETI, ELZA HELENA, Franca Geografia e História do Município ed.Santa Rita, Franca SP

SAMPAIO,TEODORO O Tupi na Geografia Nacional SP ed.nacional col. brasiliana, vol 380 págs. 1987 9359.

VIEIRA, NEUSA MACHADO, Geografia de Franca 1971 ed .Santa Rita, Franca SP.


VIEIRA, NEUSA MACHADO. Estudo Geomorfológico das Voçorocas de Franca, ec.autor-1978 (226pg).


_______ Revista da Faculdade Filosofia Ciências e Letras de Franca “As novas voçorocas de Franca”., I (2): 5-27 Franca – 1966”.

________Revista: A região de Franca – Estudos de Geografia Aplicada 1968 – Inédito, II Pág 1 – Franca

TOSSI, Fernando Capitais do interior. Págs. 261, 1998, ed. Moderna SP.

Acessado em 20 de Outubro de 2005.


ANEXOS

3 comentários:

Natalia disse...

Concordo plenamente.

Carol disse...

Geliane concordo com você, alguma medida tem que ser tomada, antes que seja tarde demais.

MATHEUS disse...

concordo com todos temos q tomar uma atitude!!!